Plug-ins personalizados
Fuja da mesmice e arranje
plug-ins com cara nova
Todo mundo já
passou algum dia pelos cinco minutos.
Aqueles cinco
minutos que fazem a gente pedir as contas no trabalho, os mesmos que fazem o
pedido ao barbeiro de passar a máquina dois, aqueles que acendem o ímpeto agudo de mudar os móveis de lugar ou o
de gastar dinheiro inexistente para trazer um moog para casa.
Se não
existissem esses cinco minutos, provavelmente alguém por aí não estaria tomando
conta de sua pousada na praia, feliz da vida, nem outro que deixaria de lado a
cabeleira hippie para começar a trabalhar em uma empresa hiperconservadora onde
conheceria o amor de sua vida (nossa, que romântico!), pouco provavelmente
haveria uma pessoa vivendo em um melhor astral só porque agora dá para ver a
árvore do sofá da sala, nem tampouco surgiria algum astro da House Music.
Mudar é
essencial, apesar de parecer amedrontador. Ficar na zona de conforto é que não
dá. É o mesmo que um jogo de futebol onde dois times ficam olhando um para
outro com a bola parada no meio do campo sem sair do lugar. Onde ficam todos apenas
parados, só olhando, imaginando que é possível perder, ter uma contusão ou
qualquer outra coisa inevitavelmente inevitável, então a conclusão de todos é: melhor
não encostar na bola. E lá se vão 90 minutos de pessoas paradas, que para
muitos equivale a uma vida toda. Classificação clássica esta de mediocridade.
Que tal comer
abacate com sal e um refogadinho de camarão em vez de limão e açúcar?
Que tal ir
trabalhar de bermuda e chinelo em vez de calça e sapato?
Que tal dar
um beijo na esposa em vez de reclamar que a calcinha tá pendurada na torneira?
Que tal
transformar o seu plug-in de compressor em um limited edition com sua
assinatura pessoal?
Ah! Como eu
gosto de caras novas no arsenal de plug-ins. Plug-ins têm realmente o dom de
dar um astral novo em qualquer produção de Pro Tools, mesmo quando trabalhamos
há muitos anos com a boa e velha carona cinza. Fora que seu colega vai falar:
Uau! Onde você arranjou esse plug-in? Daí você responde cinicamente: É uma
edição especial que a avid lançou conforme minhas solicitações alternativas
para processamento revolucionário; enquanto ri por dentro. Depois você pode
contar a verdade. Enquanto isso, em cinco minutinhos, é possível dar uma cara
nova a alguns plug-ins só por diversão, enquanto preparamos a trilha perfeita
que trará futuras grandes mudanças.
O novo
protocolo aax de plug-ins trouxe ao Pro Tools uma inegável quantidade de
melhorias e, junto com elas, uma nova estrutura construtiva que permite
navegarmos dentro da pasta do plug-in e personaliza-lo com uma cara nova, bem
diferente dos inacessíveis e acomodados de extensão dpm clássica.
Se você está
no (ru)Windows comece pela raiz do HD do sistema. Aponte para a pasta Arquivos
de Programas (x86), depois entre na pasta Common Files, depois nas pastas Avid,
Audio e Plug-ins sucessivamente. Pronto: Agora veja o monte de pastinhas de
plug-ins. Estes são os de formato aax, os dpms antigos estão em outro lugar.
Você sabia que o Pro Tools 10 já tinha tudo isso de plug-ins aax?
Figura 1 – A janela da pasta onde moram os plug-ins
aax no PC.
Se você está
na maravilhosa combinação Mac OS X 10.7.4 com Pro Tools 10.3.2, uma das mais
estáveis e coesas até o momento, mesmo não sendo a mais atual, você vai ter que
seguir outro rumo: Computador, Mac HD (ou algo similar), Library, Application
Support, Avid, Audio, Plug-ins.
Aqui estão as
belezinhas.
Figura 2 – A janela da pasta onde moram os plug-ins
aax no Mac.
Agora vamos
entrar na pasta de um plug-in e o escolhido de hoje foi o BF-76. No sistema das
janelinhas coloridas basta clicar na primeira pasta intitulada BF-76.aaxplugin,
depois em Contents, Resources, Images e Misc. AHÁ! Aparece o arquivo
backdrop.jpg. Esse é o cara que iremos personalizar, mas, para que os bem
afortunados usuários do sistema da maçã consigam chegar ao mesmo arquivo
passo-lhes aqui o como: Da pasta de plug-ins aberta há algumas linhas acima clique
com o botão direito do mouse sobre o arquivo BF-76.aaxplugin e escolha a opção
Show Package Contents. Depois clique na pasta Contents, Resources, Images, Misc
e voilà:! Backdrop.jpg à disposição no Mac.
Agora será
necessário um editor de imagem, tipo o bom e velho Photoshop, mas antes uma consideração
importante: quando você for salvar o novo arquivo este tem que ter o mesmo nome
do arquivo original e ter a mesma resolução, formato e tamanho, portanto antes
de abrir o arquivo mude seu nome para backdrop 2, por exemplo ou salve o arquivo
personalizado com outro nome e depois mude ambos.
Figura 3 – o arquivo backdrop 2.jpg aberto no
Photoshop.
O meu ficou
assim:
Figura 4 – o arquivo backdrop.jpg já com uma cara
diferente.
Agora, depois
de constatar que não sou o cara no Photoshop, chegou a hora de ver como ficou
no Pro Tools.
Abra o nosso
software rei e inserte o BF-76 em uma pista. Legal?
Figura 5 – o novo BF-76 Daniel Raizer Signature Series,
mas que precisa de uns ajustes extras.
Que tal o meu
SansAmp com mais quentura?
Figura 6 – Plug-in SansAmp apropriado para mixar rock&roll
da década de 60.
Agora sim um Audiosuite
Vari-Fi digno de nota. Os meninos ficaram lindinhos nessa roupa de
super-herói.
Figura 7 – Vari-Fi estilo papai coruja.
Obviamente,
as peças construtivas das imagens dos plug-ins tem complexidade alta e é
necessário muito trabalho para modificar tudo, mas vale a pena dar um pouco
mais de descontração no seu dia a dia, nem que seja só mudando o penteado.
Agora, se
você quer realmente um plug-in de cara nova que efetivamente seja diferente no
setor som, mas está enfrentando dificuldades de âmbito financeiro com a chegada
do IPTU, IPVA e outros custos impositivos que sabe-se bem que virarão viagem de
avião ou champagne francês para alguém que usa terno, fique contente de saber
que há plug-ins gratuitos no formato RTAS
ou aax por aí que vão dar uma cara nova e um som novo na sua vida.
Gostaria então de oferecer a sugestão de instalação de uma pérola neste setor,
o Frohmage da ohmforce, disponível em www.ohmforce.com.
Este é especialmente útil para quem faz música eletrônica, pois é um filtro ressonante,
mas diferente de tudo que você já viu. Uma coisa que eu gosto nele é que é
possível alternar presets de forma suave e gradativa, tipo uma automação
interna. Basta aumentar o slider Load para um valor maior (expresso em
segundos) e pressionar algum botão de preset. O plug-in faz o “morph” De todos
os valores do preset anterior para o próximo no tempo definido, muito legal.
Fora o som que ele produz que vai do suave ao indescritível. Vale a pena testar.
Figura 8 – O Frohmage. Plug-in com cara de queijo não
muito pior que os meus.
Enfim, basta
um pouco de paciência e logo você estará em novos rumos, graças às mudanças.
Quem sabe um dia chegamos ao ponto de termos um plug-in signature de verdade
como os do Tony Maserati?
Três dicas simples para otimizar seu trabalho no Pro Tools
Tem um arquiteto famoso chamado Ludwig Mies van
der Rohe que disse a seguinte frase:
“Deus está nos detalhes.”
Concordo em gênero e grau e acredito ainda que Deus está em outros lugares também. Detalhe é uma coisa importante e de fato é ele (ou Ele) que faz a diferença.
Os projetos do Mies (como é chamado pelos meus
colegas arquitetos) são simplesmente fantásticos, super simples,
minimalistas, retos, claros, bonitos, modernos, meticulosos, tanto
que nem parecem ser do começo do século passado. Sugiro que você
ao menos conheça a casa Farnsworth e o célebre pavilhão de
Barcelona; só “googlear” e em dois minutos você já estará
apreciando uma arquitetura com sopro divino.
As fotos da época de conclusão desses
projetos do Mies são até esquisitas; uma arquitetura espetacular e
um calhambeque parado na garagem, hilário. Um Porsche Cayman 2012
combinaria melhor, que é igualmente rico em detalhes, mas sem
overflow, excetuando-se a categoria “tutu”.
Essa riqueza de detalhes suaves vem do
movimento minimalista e também do célebre conceito Less is More,
menos é mais, na nossa língua, ou seja: quanto menos, melhor. Eu
particularmente uso isso também no Pro Tools e no trabalho que faço.
Evito compressões pesadas, equalizações severas, reverbs densos,
excetuando quando quero atingir algum efeito que a massa encefálica
ou o coração determinou. Lembro sempre do mote: se a pista tá
complicada de finalizar é porque algo deu errado na gravação.
Melhor gravar de novo mudando a técnica (quando for possível!).
Entenda que não estou falando para você ser
mais conservador, pelo contrário; explore tudo ao máximo, ouse,
esteja na vanguarda, mas seja simples. São coisas simples que fazem
a grande diferença e são estas que rompem os paradigmas.
Certamente as coisas simples são as coisas
mais difíceis de se lidar justamente por serem simples, pois acabam
passando desapercebidas. Quando aprendemos a enxergá-las e tirar
proveito delas, tudo melhora.
No Pro Tools há um monte de recursos simples
que dificilmente são utilizados no dia a dia, mas que fazem uma boa
diferença no conjunto complexo que criamos, hoje vou falar de três
deles:
- Pre fader metering – Monitoração pré-fader.
O Pro Tools vem com algumas preferências já
organizadas de fábrica e quem as configurou não fui eu, nem você,
portanto obviamente alguma coisa não estará como gostaríamos.
Você já sabe que o Pro Tools não consegue
regular o sinal de entrada que está chegando nele mesmo. Todo ajuste
de intensidade de sinal deve ser feito na fonte ou no
pré-amplificador. É fato que precisamos monitorar a intensidade do
sinal com bastante critério, pois saturação digital é
horripilante e sinal chegando baixo também é, este último por
conta dos poucos bits que irá utilizar.
Quando estamos monitorando via software o sinal
de áudio que está chegando na interface de áudio (com sua pista
habilitada para gravação) o fader não influenciará a medição,
pois esta sempre será pré-fader. Por outro lado, se estivermos
monitorando o sinal de áudio na pista já gravada o fader pode de
fato atrapalhar a medição, especialmente se este não estiver em
modo pré-fader e houver um plug-in insertado. Netse cenário é
possível que este plug-in insertado esteja clipando e o VU da pista
esteja abaixo do ponto de saturação, justamente porque o fader
dessa pista está segurando a medição, mas o sinal está saindo
distorcido.
Para visualizarmos o VU da pista sem influênica
do seu fader precisamos habilitar o modo Pre-Fader metering do Pro
Tools, assim o sinal é medido antes do ponto onde o fader está.
Assim podemos visualizar o sinal nu e cru da pista, que inclusive
passa pelos slots de insert. Esta opção fica no menu Options.
Figura 1 - Opção Pré-Fader metering
ligada no menu Options.
Faça um teste: Grave uma voz em uma pista o
mais próximo do full scale possível, ficando de olho na medição e
controlando o sinal para que fique dentro da parte inferior da área
alaranjada e da parte superior da área amarela do VU, algo entre
-3db e -6dB, assim garantimos boa conversão e evitamos picos
saturados. Agora abaixe o fader da pista alguns dBs, por volta de
5dB. Agora coloque em um slot de insert um plug-in de compressão e
aumente o ganho sutilmente até saturar. Olhe o medidor da pista.
Clipou? Provavelmente não, mas o sinal chegou saturado e durante uma
mixagem isso é bem provável de acontecer arruinando o som,
principalmente se o plug-in estiver com sua janela fechada.
Figura 2 – Pista com plug-in clipando, mas
sem indicação no fader da pista. Pré-fader metering desligado.
Continuando o teste: Vá ao menu Option e ligue
a opção Pre-Fader Metering, clicando sobre ela. Dê play novamente
olhando o VU da pista. Clipou? Agora sim! Fique esperto de agora em
diante em suas mixagens.
Esse tópico pode gerar algumas discussões
paralelas, principalmente quando levamos em considerações as
sessões de 32Bits de ponto flutuante que permitem headroom além do
necessário, mas eu diria que medir tudo pré-fader é mais uma
questão de costume do que uma técnica, pois a maioria das pessoas
mixa e até grava em modo pós-fader, apenas julgando a própria
percepção e valendo-se daquela máxima: Se soa bem, está certo!
(Joe Meek).
- Fader coupling – acoplamento de fader
Acabei de inventar esse termo. Achei simples e
direto. Oficialmente este termo chama-se Link Record and Play Faders,
que significa: amarrar faders de gravação e de reprodução; muito
comprido e sem graça para meu gosto. Essa preferência de
funcionamento fica dentro do Menu Setup / Preferences, exatamente na
guia Operation e dentro do campo Record. Desligar esta opção
default para mim é melhor.
O que acontece? Desligando-a o Pro Tools passa
a memorizar duas posições diferentes de fader para a mesma pista:
uma para quando o botão de gravação da pista está ativo e outra
para quando este botão está desativado.
Para que serve? No processo criativo de uma
produção é normal fazer um monte de remendos nas gravações, ir
mixando, fazer mais gravações na mesma pista, insertar plug-ins,
editar; esse é um dos jeitos e quando movimentamos o fader na
mixagem, por default alteramos também o volume da monitoração do
input, daí esta opção vir a calhar.
Figura 4 – A janela de preferências do Pro Tools.
Depois que fizermos uma gravação é natural
colocar plug-ins e, invariavelmente, iremos controlar o fader de
volume que muitas vezes irá baixar. Fazendo isso, por default também
iremos abaixar a intensidade de volume da monitoração quando
precisarmos fazer uma nova captação, daí temos que ajustar o fader
novamente para monitorar e perdemos o ponto da mixagem da pista (não
queremos mexer no pré), sendo necessário ajustá-lo mais uma vez
durante o playback. Desativando a opção de acoplamento de faders
podemos manter sempre intacta a posição de monitoração do sinal
de gravação e também do ponto do fader para a mixagem.
Vale lembrar que isso é muito útil também
quando estamos utilizando a função Low Latency monitoring, que
depende de determinados hardwares para funcionar. Como esta
funcionalidade dá bypass nos plug-ins e mandadas auxiliares é muito
provável que a monitoração da gravação deva ser ajustada pelo
fader, mais uma justificativa para desacoplar os faders.
- Buffer Size – Tamanho do buffer
Nós que vivemos o começo da digitalização
do áudio analógico nas gravadoras, nos estúdios, home studios e
outros locais menos especializados, sofremos em alguma data com o
atraso computacional mais importante da nossa área, a latência.
Quem durante a carreira passou em algum momento pela Soundblaster 16
e suas amigas, como alguém que conheço desde o nascimento,
certamente passou frustração, mas foi-se o tempo que esse atraso
dava margem à maledicência e pegava-nos na curva atrapalhando o
molho.
Hoje pouca gente reclama de latência, pois é
tranquilo abstrair sua existência para tocar no tempo certo
monitorando via software, excetuando os casos de jazz/blues que
precisam de um auto-lag ligado em nossas cabeças.
Através de uma formulinha simples podemos
calcular (de uma forma aproximada) a quantidade de atraso gerado na
entrada e na saída (conversão AD e DA) que será expressa em
milissegundos e que iremos enfrentar em nossas gravações com
monitoração via software: basta dividir o Buffer Size pelo Sample
Rate e multiplicar o resultado por 2. Esse primeiro valor, expresso
em samples, está definido na caixa H/W Buffer Size do menu Setup,
opção Playback Engine e, o segundo, que está definido em kHz, pode
ser encontrado na caixa Sample Rate da janela Session Setup,
acessível através do menu Setup, opção Session.
Figura 5 – Janela Playback Engine.
Figura 6 – Janela Session Setup.
Sendo assim, se definirmos um buffer size de
128 samples em uma sessão de 44.1kHz teremos um atraso final de
aproximadamente 5,8 milisegundos. Se aumentarmos o Sample Rate para
96kHz o atraso diminui para algo em torno de 2,6ms.
Disclaimer: Não quero aqui fazer um tratado de
benchmarking e é fato que ainda há outros fatores que influenciam
esse atraso (principalmente driver e hardware) e que não entraram no
cálculo, mas esse ponto de partida é um bom começo para
entendermos como funciona a latência e evitamos contas Arquimedianas
e conceitos complexos dos quais domino nenhum.
Fora o fato de sabermos esta fórmula (quase
insignificante) e o de ter uma boa máquina ao nosso serviço é
fundamental para acertarmos a quantidade de samples alocados para o
buffer de acordo com o que iremos fazer. Como vimos acima, poucos
samples alocados ao buffer e em conjunto com uma taxa de amostragem
alta irá permitir baixas latênicas, que é especialmente
interessante para gravações. Um buffer size alto permitirá mais
recursos alocados na sessão e passa a ser interessante para
mixagens, mas esse texto todo até aqui não é o cerne da questão.
O importante é que o Pro Tools só trabalha
com um buffer size fixo que seja múltiplo de 32 samples, diferente
do Ableton Live, por exemplo que aceita variantes menos
conservadoras. Algumas interfaces de áudio específicas inclusive
permitem alocar o mínimo de 32 samples para o buffer, como é o caso
da HD Native, propiciando latências minúsculas em conjunto com uma
alta taxa de amostragem. A partir de 32, os demais buffer sizes
possíveis são 64, 128, 256, 512, 1024 e 2048 samples. Todos estes
tem relação direta com o hardware de áudio.
Hoje, para esta matéria, estou usando uma Mbox
3ª geração e os buffer sizes permitidos com ela tem uma tessitura
de 128 a 1024 samples apenas, nem muito baixo a ponto de uma latência
irrisória, nem muito alto a ponto de acomodar sessões pesadas.
Fique esperto com esses múltiplos de buffer sizes, pois agora que o
Pro Tools abriu para funcionar com outras interfaces de áudio temos
que levar isso muito em consideração antes de comprar uma que não
seja da avid, pois nem todas têm drivers que trabalham com estes
valores específicos, como é o caso da US-800 da Tascam, que não
pode ser utilizada com o Pro Tools porque só funciona em buffer
sizes fixos que não são compatíveis com nosso software mór,
sabe-se lá se alguém no Japão esteja pensando nisso...
São os detalhes que fazem a diferença!
Daniel na AVID
Mês passado estive em Boston (mais precisamente em Burlington) junto com meu colega de Quanta, o Renato, para um treinamento de certificação na Avid sobre armazenamento de mídia via rede para usuários de Pro Tools enquanto nevava do lado de fora.
Figura 1 - O prédio da AVID.
Figura 2 - O logo da AVID recebendo os gentis flocos de neve.
Esse curso foi sobre o ISIS 5000, um servidor de mídia (dados) focado nos usuários de Media Composer e Pro Tools.
Figura 3 - O pessoal do curso.
Oficialmente o ISIS 5000 traz o título de Ethernet-based Shared Storage Network, ou seja, armazenamento compartilhado baseado em ethernet e é o acrônimo de Infinitely Scalable Intelligent Storage, que, por sua vez significa Armazenamento Inteligente Infinitamente escalonável. Este curso que fizemos tem o esotérico nome UN425-ACSR-ISIS 5000, e certificou-nos para instalar, configurar e fazer troubleshooting de sistemas ISIS 5000 de qualquer magnitude.
O ISIS 5000 vem na forma de um gabinete (carinhosamente chamado de Engine), composto por 16 HDs de 1 ou 2 TB, mas podemos juntar até seis ISIS 5000, permitindo o acesso ao total máximo de 192TB (Tera Bytes) de espaço para dados. Tá bom para você?
Pense comigo: Imaginando que um arquivo de áudio de um minuto em 16Bits / 44kHz no formato .wav tem aproximadamente 10MB, percebemos que o ISIS 5000 em configuração total (6 unidades com HDs de 2TB) nos permite gravar 19 milhões e duzentos mil minutos, que são o mesmo que 320.000 horas ou 13.333 dias ou 444,4 meses ou 37 anos de forma contínua, sem parar, até que ao final desse período ele atinja o máximo de sua capacidade. KKKK!
Esse incrível equipamento é especialmente útil para substituir todos os sistemas de armazenamento local em empresas (armazenamento feito no próprio computador) e também todas aquelas rotinas complexas de gerenciamento de dados e de backup.
Figura 4 - O painel frontal do ISIS 5000.
No ISIS 5000 todos os dados podem ser acessados simultaneamente por diversos usuários (clientes) sejam eles baseados na plataforma Windows ou Macintosh e que estejam conectados via cabo de rede diretamente ao ISIS 5000, ou via switch, seja o cabo feito de cobre ou óptico (com conectividade de 1Gb/s (gigabit) ou 10Gb/s respectivamente). Sem um switch, o ISIS 5000 permite até nove clientes conectados ao sistema acessando dados simultaneamente, ao passo que com a inclusão de um switch pode-se ampliar este valor para até noventa clientes simultâneos.
No coração do ISIS 5000 pulsa um computador com duplo processador fluindo pelo Windows 2008 Storage Server com Service Pack 2. O sistema próprio de gerenciamento de todo o Engine atualmente está na versão 4 e é o mais seguro e robusto de todos até agora. O disco de sistema é protegido por redundância e espelhamento (RAID 1) e conta também com funcionalidade Hot Swap, ou seja, pode ser trocado fisicamente por outro sem a necessidade de se desligar ou parar o sistema. Os dados são protegidos por RAID 5, onde toda informação é dividida em blocos e escrita em cinco HD diferentes, sendo um deles o reserva (spare), dando ao conjunto uma incrível resiliência. Todos os HDs de armazenamento tem detecção automática de erro e falha e são autorreparáveis e autorreconstruíveis, se é que existem esses termos. Pense que eles são irmãos do Wolverine. Além disso, a fonte e também os ventiladores são redundantes, estando suas sombras prontas para entrar em cena na eventualidade de uma falha de seu par. Nada pára no ISIS 5000 e nunca se perde dados. Nunca! Caso um disco apresente defeito, toda a informação que foi prejudicada imediatamente é recuperada automaticamente um aviso aparece no painel de controle.
O ISIS 5000 é um equipamento muito valioso para empresas que trabalham com vídeo, justamente por permitir o armazenamento seguro e resiliente de dados em grande quantidade e também o fato deste permitir o fluxo rápido de dados com enorme largura de banda (bandwidth) entre o storage e o cliente, que pode chegar a ordem efetiva de até 1.8GB (gigabyte) por segundo, mas também é super indicado para empresas que trabalham com áudio, mesmo necessitarem de fluxo de dados bem mais modesto.
Como o ISIS 5000 é compatível com conectividade via fibra óptica os clientes que o acessam podem estar até 300m distantes, permitindo que instalações complexas se beneficiem do sistema sem complicações com cabeamento. Muito prático para estúdios onde há diversas salas técnicas aliadas a uma grande sala de gravação e outras salas menores e possivelmente outra dedicada à masterização. Neste cenário todos podem acessar o storage central simultanteamente com bandwidth garantido e total segurança de proteção de dados.
Figura 5 - O painel traseiro do ISIS 5000.
Para usar o ISIS 5000 em versão 4.0 com o Pro Tools é necessário utilizar a funcionalidade disk cache, portanto este sistema está indicado para usuários de Pro Tools HD, especialmente HDX, a partir da edição 10 ou àqueles na versão expandida com o Complete Production Toolkit 2. Ambos estes sistemas devem estar instalados no ambiente Windows 7 ou Mac OS X.
Nesse formato de Pro Tools acima descrito, com o disk cache ativo os dados são armazenados na RAM e depois são comunicados diretamente com o ISIS 5000, ganhando-se performance. Para usuários de versões anteriores é necessário utilizar o sistema Push/Pull, onde os dados devem ser escritos localmente em cada máquina de cliente antes de passarem ao ISIS 5000, onde incorre um decréscimo na velocidade de comunicação.
Definitivamente o ISIS 5000 não é o seu HD externo corriqueiro, nem a sua intranet normal, é de longe a melhor e mais completa solução para armazenamento e sharing de dados para sistemas complexos que utilizam o Pro Tools, Media Composer ou outros softwares similares compatíveis e que pode salvar seu dia e todo seu trabalho no evento de uma pane geral; não do ISIS 5000 entretanto.
Excetuando-se a instalação que é bem complexa, onde devem ser alocadas os grupos e workspaces de acesso dos usuários e os limites de banda para cada um deles, seu uso no dia-a- dia é muito simples, bastando idealmente uma “ronda” ao menos 2 vezes ao dia dentro do ISIS 5000, para garantir que haja espaço suficiente disponível para todos os clientes e verificar se houve algum problema que provavelmente foi corrigido automaticamente, tranquilo.
Como o ISIS 5000 tem uma probabilidade de falha incrivelmente reduzida e a perda irreparável de dados é praticamente nula, se você precisa de espaço, velocidade de acesso, segurança e rotinas simples de gerenciamento para seus dados esse é definitivamente o caminho a seguir.
Retificando: Pensando bem acho que o ISIS 5000 está mais com cara de uma companhia de seguros gerenciada por um técnico ultra competente de TI do que de uma despensa.
Figura 6 - Tentativa de armazenamento de mídia em sistema paralelo ao ISIS 5000.
Para os usuários domésticos e os de pequena proporção não cabe usar um ISIS 5000, pois neste outro mundo normalmente dados são gravados e lidos localmente e pronto. Ao mínimo, estes usuários costumam usar o mesmo disco do sistema (apesar de não ser oficialmente recomendado), mas atentam para que seja um de 7200RPM ou sólido (SSD), sem mencionarmos do fato de ter muito notebook com HD de 5400RPM sendo suficiente por aí. O ideal mesmo, todo mundo sabe, é ter um outro disco rígido além do utilizado pelo sistema, bem rápido e só para dados, seja interno ou externo, sendo que deste último tipo é mister serem de conectividade USB 2.0 ou superior para sistemas Windows ou Firewire para Mac OS X. Thunderbolt também é uma opção viável para Macs.
Figura 7 - HD externo Avastos SDX 400.
Em uma visão mais econômica, não há nada de errado em gravar sua sessão em um DVD, pendrive ou HD externo, desconectá-lo e levá-lo fisicamente e pessoalmente a outro estúdio ou sala e dizer para o outro técnico amigo: - Tá aqui a sessão, pode mixar agora! Nada errado também em enviá-la via e-mail ou FTP; zipada de preferênica. Todavia, mesmo sem o ISIS 5000, a partir do Pro Tools 10 é possível utilizar a funcionalidade disk cache (versões HD ou expandida com o CPT2) para fazer o direcionamento final dos dados à uma unidade de armazenamento coletiva que está na rede, mas dificilmente haverá controle de largura de banda, um bom protocolo de segurança e provavelmente nada ou ninguém irá garantir que seu áudio vai ficar ali direitinho.
Texto extraído em parte do original publicado na revista AM&T 255.
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